Senhor anjo, dissera-me a
pequena. Senhor anjo, tão simplesmente. Senhor anjo, como se soubesse quem eu
era, mas não conhecesse minha alma. Senhor anjo, as primeiras palavras que me
dirigiu.
– Senhor anjo, conta-me uma
história?
Era uma menininha apenas, não
tinha nem dez anos. Os cabelos eram de cacheados para lisos, castanhos, e os
olhos entre o melancólico e assustado. Mas é claro que não devemos ligar para a
primeira impressão.
– Mas não sou anjo, menina – foi
o que respondi.
– Mas mesmo assim, conta-me uma
história, senhor demônio – disse. E não havia medo. Não era um destemor
inocente, era um destemor confiante. Um destemor juvenil, um destemor sonhador,
pueril. Um destemor irresistível.
E a essa menininha eu chamei de
Escritora, porque adjetivos fazem mais sentido do que nomes. E ela dizia que
não era uma – ainda. Então eu a chamava de futura-escritora, ou de
quase-escritora, ou de pequena-escritora. Porque sempre havia um caderninho em
suas mãos para anotar minhas palavras ditadas. Não anotava letra por letra, mas
que besteira! Letras ela tinha de sobra, palavras voavam ao seu redor, ela só
queria uma história. As palavras eram por sua conta.
– Como soube que eu era um anjo?
– perguntei-lhe certa vez. Mas, claro, nem contei como a encontrei. Era uma fugitiva
quando a vi, com seu velho caderninho na mão. Fugira da escola, segundo me
contara, porque a professora lhe censurara por escrever na aula de matemática.
Oh, você que está me lendo, nunca censure alguém como a Quase-Escritora por
escrever. Seria como censurar seu coração a bater.
Encontrei-a com as mãozinhas sem
luvas (era inverno, a pequena-escritora não costuma protagonizar o verão),
escrevendo sobre uma tal de Paty Maionese . Ela apenas ergueu os olhos e já
sabia quem eu era.
– Ora, Julieta me disse que Paty
disse a ela uma vez que anjos são assim.
– Assim como?
– Como você, é claro – disse como
se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
E eu parei de fazer perguntas e
me pus apenas a contar-lhe histórias. Histórias de anjo, ela dizia. Ou de um
quase-anjo.



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