terça-feira, 22 de janeiro de 2013

senhor anjo, conta-me uma história?


Senhor anjo, dissera-me a pequena. Senhor anjo, tão simplesmente. Senhor anjo, como se soubesse quem eu era, mas não conhecesse minha alma. Senhor anjo, as primeiras palavras que me dirigiu.
– Senhor anjo, conta-me uma história?
Era uma menininha apenas, não tinha nem dez anos. Os cabelos eram de cacheados para lisos, castanhos, e os olhos entre o melancólico e assustado. Mas é claro que não devemos ligar para a primeira impressão.
– Mas não sou anjo, menina – foi o que respondi.
– Mas mesmo assim, conta-me uma história, senhor demônio – disse. E não havia medo. Não era um destemor inocente, era um destemor confiante. Um destemor juvenil, um destemor sonhador, pueril. Um destemor irresistível.
E a essa menininha eu chamei de Escritora, porque adjetivos fazem mais sentido do que nomes. E ela dizia que não era uma – ainda. Então eu a chamava de futura-escritora, ou de quase-escritora, ou de pequena-escritora. Porque sempre havia um caderninho em suas mãos para anotar minhas palavras ditadas. Não anotava letra por letra, mas que besteira! Letras ela tinha de sobra, palavras voavam ao seu redor, ela só queria uma história. As palavras eram por sua conta.
– Como soube que eu era um anjo? – perguntei-lhe certa vez. Mas, claro, nem contei como a encontrei. Era uma fugitiva quando a vi, com seu velho caderninho na mão. Fugira da escola, segundo me contara, porque a professora lhe censurara por escrever na aula de matemática. Oh, você que está me lendo, nunca censure alguém como a Quase-Escritora por escrever. Seria como censurar seu coração a bater.
Encontrei-a com as mãozinhas sem luvas (era inverno, a pequena-escritora não costuma protagonizar o verão), escrevendo sobre uma tal de Paty Maionese . Ela apenas ergueu os olhos e já sabia quem eu era.
– Ora, Julieta me disse que Paty disse a ela uma vez que anjos são assim.
– Assim como?
– Como você, é claro – disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
E eu parei de fazer perguntas e me pus apenas a contar-lhe histórias. Histórias de anjo, ela dizia. Ou de um quase-anjo.

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