Tic. Fora do tempo, fora do
mundo, fora da arte e fora da vida. No esquecimento mais profundo, nas
cicatrizes de uma velha ferida de guerra. Fora de você, mas em mim para sempre.
Tac. No abismo infinito, no
Vazio, no medo e nas lágrimas, nas marcas do eterno passado. Na superfície da
pele que se arrepia, no canto escuro atrás da porta. No tão longo fim...
eis-me.
Tic. Abstratamente falando, (tac)
não há nada mais concreto que um pêndulo balançando.
E o barulho do relógio a correr
em câmera lenta é o que denuncia o quão veloz ele pode ser.
Tic, tac – uma onomatopeia
infinita.
Então que saia delas – das
palavras que nunca sabem me obedecer – o passado que nunca acaba, que só
aumenta, que se acumula, que sempre frustra. E que cada segundo que deposito
aqui seja só mais um no tempo, enquanto paro para apreciar o instante e me dou
conta de que ele já passou.
Presente – o mais escorregadio
dos tempos – que quase não chega a existir. O presente já existiu no passado e
ainda assim agora ele o é. Inconstante, mutável, passageiro.
O agora é você. Ou foi. Foi agora
no passado, mas já não o é mais. O plural virou singular mais uma vez e eis que
a metade é tida como o todo, e eis que a alegria é tida como felicidade, e eis
que o que era amor agora é pura solidão.
Eis o espetáculo improvisado no
teatro do tempo! Eis a obra de arte que o vento esculpiu! Eis a vida! Eis-me
como uma constante e você como icógnita. Permita-me decifrar-te, deslindar-te,
desamar-te... desumanizar-te.


