quinta-feira, 24 de janeiro de 2013


Distração. Arte, arte, distração. Distração, distração, arte, arte; distração. Distração, distração, distração. Distração. Arte. Distração, arte, distração. Arte, arte, distração, arte. Distração. Distração, distração, arte, distração. Distração, distração, distração, distração, distração. Destruição.

Inércia maldita! - de encantos e prantos


Inércia maldita,
da peripécia desdita,
que nenhuma força maior impede. 
Pudera eu me pôr em movimento:
deixar de ser ar e passar a ser vento.

Da vida que é curta,
que é uma,
uma dina, trina,
divina sina sem deus.

 Da vida vivida, ida,
finada vida,
da vida só tiro pensamentos.

Lamentos, tormentos,
momentos, ventos,
lidos com pressa em terrenos lamacentos,
relentos, lazarentos;
em terrenos da alma,
sem calma, sem tato
na palma que espalma
e desalma vivalma.

Do risco vermelho,
do errado no espelho
que mostra nós e vós
– e vossa muda voz.
Absolutamente nada.

Inércia maldita,
da ama a desdita,
de ouro pepita
que nuca se encontrará.

Corrida de ouro,
de vida, tesouro
 – da calma de ir de lá pra cá.

Inércia maldita,
não faz e nem traz,
 a nada satisfaz
e acomoda o agito da mente.

Da mente que mente,
carente, doente,
nunca sorridente,
de nenhum modo crente,
feliz raramente
e triste talvez.

Dos dias de glória
aos anos de escória,
que traz pensamentos
e eternos lamentos
buscando momentos
que nem deus quer dar.

E o que é a liberdade?
além de ser a verdade
pra quem já passou da idade
de buscar felicidade
que não tem num só lugar.

Que não se encontra na vida,
vivida, ida,
finada vida,
que me traz os meus momentos
– de onde tiro os lamentos,
tormentos, pensamentos
e outros tantos.

Que são lidos com pressa nos terrenos da alma:
lamacentos, relentos,
lazarentos com encantos
e prantos.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

senhor anjo, conta-me uma história?


Senhor anjo, dissera-me a pequena. Senhor anjo, tão simplesmente. Senhor anjo, como se soubesse quem eu era, mas não conhecesse minha alma. Senhor anjo, as primeiras palavras que me dirigiu.
– Senhor anjo, conta-me uma história?
Era uma menininha apenas, não tinha nem dez anos. Os cabelos eram de cacheados para lisos, castanhos, e os olhos entre o melancólico e assustado. Mas é claro que não devemos ligar para a primeira impressão.
– Mas não sou anjo, menina – foi o que respondi.
– Mas mesmo assim, conta-me uma história, senhor demônio – disse. E não havia medo. Não era um destemor inocente, era um destemor confiante. Um destemor juvenil, um destemor sonhador, pueril. Um destemor irresistível.
E a essa menininha eu chamei de Escritora, porque adjetivos fazem mais sentido do que nomes. E ela dizia que não era uma – ainda. Então eu a chamava de futura-escritora, ou de quase-escritora, ou de pequena-escritora. Porque sempre havia um caderninho em suas mãos para anotar minhas palavras ditadas. Não anotava letra por letra, mas que besteira! Letras ela tinha de sobra, palavras voavam ao seu redor, ela só queria uma história. As palavras eram por sua conta.
– Como soube que eu era um anjo? – perguntei-lhe certa vez. Mas, claro, nem contei como a encontrei. Era uma fugitiva quando a vi, com seu velho caderninho na mão. Fugira da escola, segundo me contara, porque a professora lhe censurara por escrever na aula de matemática. Oh, você que está me lendo, nunca censure alguém como a Quase-Escritora por escrever. Seria como censurar seu coração a bater.
Encontrei-a com as mãozinhas sem luvas (era inverno, a pequena-escritora não costuma protagonizar o verão), escrevendo sobre uma tal de Paty Maionese . Ela apenas ergueu os olhos e já sabia quem eu era.
– Ora, Julieta me disse que Paty disse a ela uma vez que anjos são assim.
– Assim como?
– Como você, é claro – disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
E eu parei de fazer perguntas e me pus apenas a contar-lhe histórias. Histórias de anjo, ela dizia. Ou de um quase-anjo.


Meu cabelo está preso, mas minha alma anda à solta por aí. Cuidado! Ela carrega uma cicatriz eterna e enxerga através dos óculos de si mesma. Nada acima do meu pensamento me move, nada abaixo dos meus pés me carrega. Nada de palavras de solidão, ou clichês de falsos sorrisos: os meus são verdadeiros e tenho em mim todas as pessoas do mundo. Sou poeta, sou como a morte – recolho e guardo quantas almas eu puder carregar.

Você torna bela a minha dor.



Queria amar-te como o mar, que alcança com seus lábios as margens de todas as terras. Ele beija seus lábios escorrega pelo seu corpo, indo e vindo, apreciando cada centímetro de sua pele da forma e no momento que seu desejo mandar. Contudo, de que adiantaria ser o mar, se ele estende seus braços mas não sai do lugar? És tão escorregadio, querido, que eu teria de inundar o mundo para acabar em seus braços.
Poderia eu, então, amar-te como o vento. Ele percorre campos, prados, oceanos sem se cansar. E incansável devo ser quando trata-se de você, querido. Se eu fosse vento, iria até o fim do mundo para alcançar-te. Espalhar-me-ia por todo espaço e expandir-me-ia até encontrar-te.

Oh Deus, mas o vento não possui olhos ou mãos! Como eu poderia, então, passar noites em claro a admirar cada traço de tua face e a tocá-lo da forma sólida que o vento nunca faria? Ora, é certo que ele poderia espalhar-se pela sua face a agitar seus cabelos, mas não receberia de volta o toque.

E se eu te amasse como uma vilã? Passaria por cima de tudo e de todos para chegar até ti. Colocaria o mundo aos meus pés e os habitantes deste em minhas mãos. Não teria piedade e tu deverias ser meu, então. Contudo, vilões não amam e assim eu perderia toda a magia de ter-te em meus pensamentos.

Como amar-te então? Como uma princesa, que está sempre em perigo em sua torre? Ou como o céu, que tudo abrange, que tudo vê, mas nada toca? Poderia eu ser teu sol para aquecer tua pele? Ou tua lua, para banhá-la com o brilho prateado que me tece? Seria eu uma aranha a prender-te em minha teia? Oh, não, tens medo de aranhas! Talvez uma flor, para chegar perto de teu rosto e mostrar-te meu aroma. Ou até mesmo teu espelho, para refletir a face que tanto amo.

Poderia amá-lo de todas as maneiras, ensimesmando-me todas as formas, em todos os momentos e circunstâncias. Poderia ser o chão em que tu pisas ou o leito eu que repousas. Poderia ser tua droga, que te entorpece e o faz viciar. Poderia ser o rock que te enlouquece e consola, a córnea de teus verdes olhos, os trajes que te vestem e estão tão perto de teu corpo. Poderia ser tu: tua alma, teu corpo, tua vida, teu coração. Poderia ao menos ter um pedaço em tal cerne ou ser um punhal que te fira a carne. Poderia ser eu teu paraíso e teu inferno, teu vinho tinto e teu veneno, aquilo que deseja e ignora ao mesmo tempo. Posso ser sua manhã e seu anoitecer, seu prazer à luz das estrelas. Posso ser a luz de sua rua ou o travesseiro em que deita a cabeça. Poderia ser seu lar ou sua renegada.

Poderia ser isso tudo e tudo isso sou, muito embora eu não seja apenas isso.
Sendo ou não assim, sou. Sou tua bênção e tua maldição, o presente que ganhou e não abriu. Talvez uma mochila, aquela para a qual sempre está de costas. Amo-te, amo-te assim, como um objeto, como teu brinquedo, como um detalhe do seu dia no qual não repara mas deseja quando está só. Aquilo no que pensa sem saber, que ama sem perceber, que estará sempre na retaguarda, como mera coadjuvante, alguém qualquer do time de reserva.

Ainda assim, amo-te. Amo-te pois essa és minha vitalidade e minha alma e é isso que forma meu coração e o faz bater. Amo-te como nem o vento, nem o mar, nem o chão ou o céu pode amar-te. Amo-te, apenas.

Você torna bela a minha dor.