terça-feira, 25 de setembro de 2012

tic tac tic tac...


Tic. Fora do tempo, fora do mundo, fora da arte e fora da vida. No esquecimento mais profundo, nas cicatrizes de uma velha ferida de guerra. Fora de você, mas em mim para sempre.
Tac. No abismo infinito, no Vazio, no medo e nas lágrimas, nas marcas do eterno passado. Na superfície da pele que se arrepia, no canto escuro atrás da porta. No tão longo fim... eis-me.
Tic. Abstratamente falando, (tac) não há nada mais concreto que um pêndulo balançando.
E o barulho do relógio a correr em câmera lenta é o que denuncia o quão veloz ele pode ser.
Tic, tac – uma onomatopeia infinita.
Então que saia delas – das palavras que nunca sabem me obedecer – o passado que nunca acaba, que só aumenta, que se acumula, que sempre frustra. E que cada segundo que deposito aqui seja só mais um no tempo, enquanto paro para apreciar o instante e me dou conta de que ele já passou.
Presente – o mais escorregadio dos tempos – que quase não chega a existir. O presente já existiu no passado e ainda assim agora ele o é. Inconstante, mutável, passageiro.
O agora é você. Ou foi. Foi agora no passado, mas já não o é mais. O plural virou singular mais uma vez e eis que a metade é tida como o todo, e eis que a alegria é tida como felicidade, e eis que o que era amor agora é pura solidão.
Eis o espetáculo improvisado no teatro do tempo! Eis a obra de arte que o vento esculpiu! Eis a vida! Eis-me como uma constante e você como icógnita. Permita-me decifrar-te, deslindar-te, desamar-te... desumanizar-te.

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